Bem-estar

Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão, sugere estudo

ResumoEstudo da Harvard Medical School e King's College London, publicado na Nature Mental Health, sugere que dor crônica não diagnosticada pode influenciar o tratamento da depressão. A pesquisa indica que parte dos casos de depressão resistente pode ocultar dor crônica nunca medida. O estudo critica a ausência de avaliação sistemática da dor em pacientes deprimidos.

Pesquisadores da Harvard Medical School e do King's College London publicaram artigo na Nature Mental Health sugerindo que parte dos casos de depressão resistente pode, na verdade, esconder uma dor crônica nunca medida. O estudo critica a ausência de avaliação sistemática da dor

Escrito por Renata Bello · Atualizado em 28 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Revisado clinicamente porConselho clínico Método Fit 30Equipe médica revisora

Resumo rápido

  • Pesquisadores da Harvard Medical School e do King's College London publicaram artigo na Nature Mental Health sugerindo que parte dos casos de depressão resistente pode, na verdade, esconder uma dor crônica nunca medida.
  • O estudo critica a ausência de avaliação sistemática da dor
Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão, sugere estudo

Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão, sugere estudo

Pesquisadores da Harvard Medical School e do King's College London publicaram nesta terça-feira (28) na revista Nature Mental Health um artigo que questiona a definição atual de depressão resistente ao tratamento. O argumento central é que parte dos pacientes classificados como refratários pode, na realidade, ter uma dor crônica que nunca foi medida de forma sistemática. A ausência dessa avaliação, segundo os autores, pode influenciar a resposta aos antidepressivos e levar a diagnósticos imprecisos.

O que o estudo da Nature Mental Health revela sobre dor crônica e depressão

A dor crônica é comum em pessoas com depressão e reduz a resposta aos antidepressivos. Apesar disso, ela não faz parte da definição formal de depressão resistente, não aparece nos questionários mais usados na prática clínica, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, e costuma ser excluída dos ensaios clínicos que orientam diretrizes de tratamento.

Segundo o artigo, quando a depressão não responde ao tratamento, médicos tendem a se perguntar se a medicação falhou. Raramente questionam se a dor crônica foi em algum momento medida. Os autores destacam que a dor pode explicar parte dos casos de depressão resistente, mas não afirmam que ela explica todos.

"Não estamos afirmando que a maioria dos casos de depressão resistente seja explicada pela dor, nem que pacientes com dor não tenham uma depressão verdadeiramente resistente", explica Nilson Mendes Neto, médico e pesquisador da Harvard Medical School, um dos autores do artigo.

A lacuna na avaliação da depressão resistente

Nilson Mendes Neto, que tem trabalho voltado à interface entre dor crônica e saúde, aponta uma diferença crucial entre o médico saber que o paciente sente dor e a dor ser medida e incorporada de maneira estruturada à avaliação da depressão resistente.

"Hoje, a classificação da depressão resistente ao tratamento se baseia principalmente na falha de tratamentos antidepressivos realizados em dose e duração adequadas. A presença, intensidade e impacto funcional da dor não fazem parte formal dessa definição", afirma o pesquisador.

Ele acrescenta que instrumentos como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, amplamente utilizados para avaliar depressão, não avaliam diretamente a carga de dor. Mesmo quando o médico sabe que a dor existe, muitas vezes não há uma medida padronizada que permita determinar quanto ela pode estar contribuindo para a persistência dos sintomas ou para a aparente falha do tratamento.

"Esse é justamente o ponto que levantamos: não estamos dizendo que os médicos simplesmente ignoram a dor. Estamos mostrando que a arquitetura usada para medir e classificar a depressão resistente não exige que ela seja sistematicamente considerada", completa.

O que os pesquisadores não estão dizendo

Os autores fazem questão de delimitar o alcance do argumento. Eles não afirmam que a maioria dos casos de depressão resistente seja explicada pela dor. Também não dizem que pacientes com dor não tenham uma depressão verdadeiramente resistente. O que propõem é que, em alguns pacientes, uma condição dolorosa não medida pode estar contribuindo para a aparente resistência ao tratamento.

A dor pode tanto modificar a resposta ao antidepressivo quanto interferir na maneira como os sintomas são interpretados. "Não sabemos qual proporção dos pacientes pode estar nessa situação. E ninguém consegue responder adequadamente a essa pergunta hoje justamente porque a dor não é medida de maneira sistemática", explica Nilson.

Os pesquisadores também ressaltam que os pacientes não devem mudar ou parar a medicação com base no artigo.

Implicações para o SUS e a atenção primária

Nilson Mendes Neto vê implicações importantes para o contexto brasileiro, especialmente para o Sistema Único de Saúde (SUS). A primeira delas é que o problema não exige necessariamente tecnologia cara para começar a ser enfrentado.

Na atenção primária, nos ambulatórios de saúde mental e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), uma avaliação estruturada sobre presença, duração e impacto da dor poderia ajudar a identificar pacientes em que esse componente merece ser investigado antes de concluir que a depressão é realmente resistente ao tratamento.

"Isso é especialmente relevante para o SUS, porque muitos pacientes com depressão também convivem com condições dolorosas crônicas, como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias. Muitas vezes esses problemas são acompanhados em serviços diferentes, embora o paciente seja o mesmo", pondera o pesquisador.

O argumento reforça a importância de integrar melhor saúde mental e cuidado da dor. Antes de escalar para tratamentos progressivamente mais especializados e caros, faz sentido garantir que fatores clínicos potencialmente modificáveis tenham sido avaliados de maneira sistemática.

"Isso não significa atrasar ou negar tratamentos eficazes para depressão resistente. Significa aumentar a precisão da classificação para que o tratamento certo seja oferecido ao paciente certo", afirma Nilson.

Como começar no Brasil

De acordo com o pesquisador, no Brasil isso poderia começar de maneira relativamente simples: incluir rastreio de dor na avaliação de pacientes cuja depressão não responde ao tratamento, registrar essa informação de forma padronizada e fortalecer a integração entre atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor.

"Em resumo, a implicação para o SUS é bastante concreta: antes de tornar o tratamento mais complexo, precisamos ter certeza de que a avaliação não deixou de medir algo importante e potencialmente tratável", conclui.

Também assinam o artigo Brendon Stubbs, do King's College London, e Jessika Mendes, do NeuroPsy.

Perguntas Frequentes

O que é depressão resistente ao tratamento?

É a classificação usada quando a depressão não responde a pelo menos duas tentativas de tratamento com antidepressivos em dose e duração adequadas. A definição atual não inclui a avaliação sistemática da dor crônica.

Como a dor crônica pode influenciar o tratamento da depressão?

A dor crônica reduz a resposta aos antidepressivos e pode interferir na interpretação dos sintomas. Quando não é medida, pode levar à classificação equivocada de depressão resistente.

Os autores afirmam que a dor explica todos os casos de depressão resistente?

Não. Os pesquisadores argumentam que parte dos pacientes pode ter uma dor não identificada, mas não afirmam que a maioria dos casos seja explicada pela dor.

O que o paciente deve fazer com base nesse artigo?

Os autores ressaltam que os pacientes não devem mudar ou parar a medicação com base no artigo. A recomendação é discutir qualquer dúvida com o médico.

Como o SUS pode aplicar essa descoberta?

Incluindo rastreio de dor na avaliação de pacientes com depressão que não responde ao tratamento, registrando a informação de forma padronizada e integrando atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor.

Fontes

  • Conteúdo revisado pela equipe clínica de Método Fit 30.
  • Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
  • Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.

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