Cientistas "curam" pacientes com HIV: como funciona o transplante
Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio. Pacientes de Kansas City e Essen receberam transplante de células-tronco com mutação que bloqueia a entrada do vírus. Entenda o mecanismo e os resultados.
Resumo rápido
- Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio.
- Pacientes de Kansas City e Essen receberam transplante de células-tronco com mutação que bloqueia a entrada do vírus.
- Entenda o mecanismo e os resultados.
Saiba como cientistas "curaram" pacientes infectados com HIV
Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Com isso, sobe para 13 o número de pacientes infectados que não tiveram o vírus detectado no sangue após transplante de células-tronco. O tratamento, embora ainda experimental, acende uma esperança concreta para quem convive com o vírus.
Dois novos casos de remissão do HIV foram anunciados na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio. Pacientes de Kansas City (EUA) e Essen (Alemanha) receberam transplante de células-tronco de doadores com mutação CCR5 delta32, que impede a entrada do vírus nas células. Após interromperem os antirretrovirais, não tiveram vírus detectado no sangue por 14 e 12 meses, respectivamente.
O que é a remissão do HIV e como ela difere da cura?
A remissão significa que o vírus não é mais detectado no sangue, mas não há garantia de que não retornará. No caso dos dois pacientes, os pesquisadores preferem o termo "remissão" em vez de "cura", já que não é possível afirmar se a infecção reaparecerá com o tempo. O primeiro paciente considerado curado, Timothy Ray Brown ("paciente de Berlim"), viveu livre do HIV de 2007 até 2020, quando morreu de leucemia.
Como o transplante de células-tronco pode levar à remissão do HIV?
O segredo está na mutação genética dos doadores. Ambos os pacientes receberam células-tronco hematopoiéticas, aquelas que dão origem a todas as células sanguíneas, incluindo os linfócitos T CD4+. Esses doadores possuíam uma mutação chamada CCR5 delta32, que altera o correceptor CCR5 na superfície das células CD4+.
O papel do receptor CCR5 e da mutação delta32
Para infectar uma célula, o HIV precisa se conectar a três moléculas na membrana da CD4+: o receptor CD4, o correceptor CCR5 e o CXCR4. A mutação CCR5 delta32 produz uma versão modificada do correceptor, que impede a ligação do vírus. Sem conseguir abrir a "porta" de entrada, o HIV não consegue se replicar.
Com o transplante, o paciente ganha células-tronco que carregam essa mutação. Como elas originam novas CD4+, todo o sistema imunológico do paciente se torna potencialmente resistente ao HIV.
Os casos de Kansas City e Essen: detalhes dos resultados
Paciente de Kansas City (EUA)
Aos 21 anos, o homem descobriu que, além de HIV, tinha leucemia mieloide aguda, um câncer que afeta a produção de células de defesa. Após o transplante, os antirretrovirais foram interrompidos. Passaram-se 14 meses sem detecção do vírus.
Paciente de Essen (Alemanha)
Este paciente estava infectado por dois tipos diferentes de HIV e também pelo vírus da hepatite B (HBV). Após o transplante, a terapia antirretroviral foi suspensa. Durante 12 meses, o HIV não foi detectado. No entanto, houve uma recidiva do vírus da hepatite B, o que mostra que o transplante não eliminou todas as infecções.
Por que essa abordagem não é para todos os pacientes com HIV?
A mutação CCR5 delta32 é rara. Segundo a pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo de Essen, a mutação em homozigose (quando ambos os pais transmitem o gene) está presente em cerca de 10% dos europeus do norte. Encontrar um doador compatível com essa mutação é extremamente difícil.
Além disso, o transplante de células-tronco é um procedimento de alto risco, indicado apenas para pacientes que já precisam dele para tratar um câncer no sangue. Não é uma terapia acessível para todos os 39 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo.
O futuro da pesquisa: testes mensais e acompanhamento contínuo
"É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco", afirma Wissam El Atrouni, pesquisador do caso de Kansas City. "É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."
Os pesquisadores querem entender se a mutação CCR5 delta32 é realmente a chave para a remissão de longo prazo. Cada novo caso ajuda a refinar o protocolo e a identificar quais fatores são decisivos.
Perguntas Frequentes
O que significa remissão do HIV?
Remissão significa que o vírus não é mais detectável no sangue, mas não há garantia de que não retornará. É diferente de cura, que implicaria erradicação total do vírus.
Quantos pacientes já tiveram remissão do HIV após transplante?
Com os dois novos casos, o número chega a 13 pacientes que não tiveram o vírus detectado após transplante de células-tronco.
Por que o tratamento não é oferecido a todos os pacientes com HIV?
O transplante de células-tronco é um procedimento de alto risco, indicado apenas para tratar cânceres no sangue. A mutação CCR5 delta32 é rara, e encontrar um doador compatível é difícil.
Quanto tempo os pacientes ficaram sem o vírus detectado?
O paciente de Kansas City ficou 14 meses sem detecção; o de Essen, 12 meses.
O que aconteceu com o paciente de Berlim?
Timothy Ray Brown, o primeiro paciente considerado curado, recebeu o transplante em 2007 e viveu livre do HIV até 2020, quando morreu de leucemia.
O transplante elimina outras infecções, como a hepatite B?
No caso de Essen, o HIV não foi detectado, mas houve recidiva do vírus da hepatite B. O transplante não elimina automaticamente todas as infecções.
remissão do HIV: o que é e como funciona transplante de células-tronco: riscos e benefícios
Fontes
- Conteúdo revisado pela equipe clínica de Método Fit 30.
- Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
- Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.