Cientistas "curam" HIV? Entenda remissão após transplante
Na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio, dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados. Chega a 13 o número de pacientes sem vírus detectado. Entenda o mecanismo por trás da mutação CCR5 delta32.
Resumo rápido
- Na 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio, dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados.
- Chega a 13 o número de pacientes sem vírus detectado.
- Entenda o mecanismo por trás da mutação CCR5 delta32.
Cientistas "curam" HIV? Entenda os novos casos de remissão após transplante de células-tronco
Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células-tronco foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Com isso, chega a 13 o número de pacientes infectados que não tiveram vírus detectados no sangue após esse tipo de tratamento. A notícia reacende a esperança, mas os cientistas preferem o termo "remissão" em vez de "cura".
O que é remissão do HIV e por que não se fala em cura?
Remissão significa que o vírus não foi detectado no organismo por um período, mas não há garantia de que não volte. No caso do HIV, os pesquisadores evitam a palavra "cura" porque não é possível afirmar se a infecção retornará depois de algum tempo. O primeiro paciente considerado curado, Timothy Ray Brown, o "paciente de Berlim", recebeu transplante em 2007 e viveu livre do vírus até 2020, quando morreu de leucemia, a doença que motivou o procedimento.
Quem são os novos pacientes em remissão?
Um dos casos é o "paciente de Kansas City", nos Estados Unidos. Aos 21 anos, ele descobriu que, além do HIV, tinha leucemia mieloide aguda, um câncer que afeta a produção de células de defesa. O outro é o "paciente de Essen", na Alemanha, infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV).
Ambos passaram por transplante de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que originam as células sanguíneas, incluindo os leucócitos, que defendem o corpo.
Como o transplante de células-tronco pode combater o HIV?
O HIV só se torna ativo quando entra em uma célula. Seu alvo é o linfócito T CD4+, peça-chave do sistema imunológico. Para invadir, o vírus se conecta a moléculas na membrana da CD4+: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Ao se ligar, abre uma "porta" e inicia a replicação.
Nos doadores das células-tronco, havia uma mutação especial chamada CCR5 delta32, que produz uma versão modificada do correceptor CCR5. Essa versão impede a ligação do vírus, bloqueando a entrada. Com o transplante, o paciente ganha células que dão origem a novas CD4+ potencialmente resistentes ao HIV.
O que aconteceu após o transplante nos dois casos?
Nos dois pacientes, a terapia com antirretrovirais foi interrompida para avaliar a resposta ao transplante. Mesmo após vários meses, os pesquisadores não detectaram o vírus. No paciente de Kansas City, foram 14 meses sem detecção; no de Essen, 12 meses. Porém, no caso de Essen, houve recidiva do vírus da hepatite B, o que mostra que a imunidade ao HIV não elimina outros patógenos.
O papel da mutação CCR5 delta32 e os desafios
A mutação em homozigose, quando pai e mãe transferem o gene CCR5 delta32 para o filho, está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo muito rara. A pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo com o paciente de Essen, questiona se essa mutação é realmente a chave para remissão de longo prazo do HIV.
Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pela pesquisa com o paciente de Kansas City, reforça: "É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco. É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."
O que esperar do futuro do tratamento?
Os estudos mostram que o transplante de células-tronco com doador portador da mutação CCR5 delta32 pode levar à remissão, mas o procedimento é arriscado e reservado a casos de câncer, não como tratamento padrão para HIV. Acompanhamento contínuo e testes mensais são essenciais para monitorar possíveis recidivas.
Perguntas Frequentes
O transplante de células-tronco é uma cura para o HIV?
Não. Os cientistas preferem o termo remissão, pois não há garantia de que o vírus não retorne. O transplante é um procedimento de alto risco, usado quando há doenças como leucemia.
Quantos pacientes já tiveram remissão do HIV após transplante?
Com os dois novos casos, chega a 13 o número de pacientes que não tiveram vírus detectado após transplante de células-tronco.
O que é a mutação CCR5 delta32?
É uma alteração genética que produz uma versão modificada do correceptor CCR5, impedindo a entrada do HIV nas células CD4+. Presente em cerca de 10% dos europeus do norte em homozigose.
Por que o paciente de Essen teve recidiva da hepatite B?
A interrupção da terapia antirretroviral, que também controlava o HBV, permitiu a volta do vírus da hepatite B, mesmo com a remissão do HIV.
Quem foi o primeiro paciente considerado curado do HIV?
Timothy Ray Brown, o "paciente de Berlim", que recebeu transplante em 2007 e viveu sem HIV até 2020, quando morreu de leucemia.
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Fontes
- Conteúdo revisado pela equipe clínica de Método Fit 30.
- Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
- Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.