Como cientistas "curaram" pacientes com HIV: 13 casos
Dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados na Conferência Internacional da Aids, no Rio. Total chega a 13. Entenda como a mutação CCR5 delta32 bloqueia o vírus.
Resumo rápido
- Dois novos casos de remissão do HIV após transplante de células-tronco foram anunciados na Conferência Internacional da Aids, no Rio.
- Total chega a 13.
- Entenda como a mutação CCR5 delta32 bloqueia o vírus.
Como cientistas "curaram" pacientes com HIV: remissão após transplante
Dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células-tronco foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional da Aids, no Rio de Janeiro. Com isso, chega a 13 o número de pacientes infectados que não tiveram vírus detectados no sangue após esse tratamento. Os casos foram batizados de "paciente de Kansas City" (EUA) e "paciente de Essen" (Alemanha).
A remissão não é o mesmo que cura. Os pesquisadores preferem o termo "remissão" porque não é possível afirmar que a infecção não retornará. Ainda assim, o resultado representa um avanço na compreensão de como o HIV pode ser controlado sem antirretrovirais.
O que é a mutação CCR5 delta32 e por que ela bloqueia o HIV
O HIV, como qualquer vírus, só se torna ativo quando entra em uma célula. No caso do HIV, o alvo é o linfócito T CD4+, peça fundamental do sistema imunológico. Para entrar, o vírus se conecta a moléculas na membrana da CD4+: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Ao fazer essas conexões, o vírus abre uma "porta" e inicia a replicação.
Os doadores das células-tronco, nos dois novos casos, tinham uma mutação genética chamada CCR5 delta32. Essa mutação produz uma versão modificada do correceptor CCR5, que impede a ligação do vírus. Sem conseguir entrar na CD4+, o HIV não mantém a infecção.
Como o transplante de células-tronco gera células resistentes
Os pacientes receberam transplantes de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que originam as células sanguíneas, incluindo os leucócitos. Com o transplante, o paciente ganha células com o gene produtor de CCR5 delta32. Como essas células dão origem às CD4+, as novas gerações de linfócitos serão potencialmente resistentes ao HIV.
Nos dois casos, a terapia com antirretrovirais foi interrompida para avaliar a resposta. Mesmo após vários meses, os pesquisadores não detectaram o vírus no organismo.
Os dois novos casos: Kansas City e Essen
O "paciente de Kansas City" descobriu aos 21 anos que, além do HIV, tinha leucemia mieloide aguda, um câncer que afeta a produção de células de defesa. Após o transplante, passaram-se 14 meses sem vírus detectado. Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pela pesquisa, afirma: "É apenas o caso de um paciente, mas que se soma à lista de pacientes que se recuperaram após o transplante de células-tronco. É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais."
O "paciente de Essen" estava infectado por dois tipos diferentes de HIV e pelo vírus da hepatite B (HBV). Após o transplante, ficou 12 meses sem HIV detectado. No entanto, houve recidiva do vírus da hepatite B, já que a terapia foi interrompida. A pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo, conclui: "A mutação em homozigose [quando pai e mãe transferem o gene CCR5 delta32 para o filho] está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo, infelizmente, muito rara. A questão principal é se a presença da mutação CCR5 delta32 é realmente a chave para se alcançar uma remissão de longo prazo do HIV."
O precedente: Timothy Ray Brown, o paciente de Berlim
O primeiro paciente considerado curado do HIV, Timothy Ray Brown, recebeu um transplante de células-tronco em 2007. Ele viveu livre do HIV até 2020, quando morreu vítima de leucemia, a doença que motivou o transplante. Esse caso histórico ajuda a entender o potencial da abordagem, embora cada novo caso exija acompanhamento de longo prazo.
Por que "remissão" e não "cura"
Os estudos concluíram que houve remissão da infecção pelo HIV. Apesar de o caso ser tratado como "cura", o correto é dizer remissão, pois não é possível afirmar se a infecção retornará. O acompanhamento contínuo é essencial, como destacam os pesquisadores.
Perguntas Frequentes
Quantos pacientes com HIV já entraram em remissão após transplante?
Com os dois novos casos, chega a 13 o número de pacientes sem vírus detectado após transplante de células-tronco.
O que é a mutação CCR5 delta32?
É uma alteração genética que produz uma versão modificada do correceptor CCR5, impedindo que o HIV entre nas células CD4+.
A remissão é o mesmo que cura?
Não. Remissão significa ausência de vírus detectável, mas não garante que a infecção não retornará.
Por que a mutação é rara?
A mutação em homozigose está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, sendo muito rara em outras populações.
O transplante é uma opção para todos os pacientes com HIV?
Não. O transplante de células-tronco é um procedimento de alto risco, indicado principalmente para tratar doenças como leucemia, não como tratamento padrão para HIV.
Para quem busca entender os mecanismos de resistência ao HIV, o estudo da CCR5 delta32 é um marco. A ciência avança passo a passo, e cada caso soma evidências. como o HIV ataca o sistema imunológico tratamentos atuais para HIV
Fontes
- Conteúdo revisado pela equipe clínica de Método Fit 30.
- Diretrizes de sociedades médicas brasileiras e da Organização Mundial da Saúde.
- Ministério da Saúde · publicações oficiais de saúde pública.